Concordância verbal na prática

Como o verbo concorda com o sujeito, incluindo sujeito composto, coletivo, partitivo, a partícula “se” e os verbos impessoais.

Por Dra. Eliana Camargo · 8 min de leitura ·

Concordância verbal é o verbo se flexionando para acompanhar o sujeito em número e pessoa. A regra geral é simples; o que derruba são os casos em que o sujeito não é o que parece.

Regra geral

O verbo concorda com o núcleo do sujeito. “Nós vamos ao cinema.” “A aluna entregou o trabalho.”

Sujeito simples: os casos que confundem

Coletivo

Com coletivo, o verbo fica no singular: “A multidão gritou.” Se o coletivo vier especificado, as duas formas são aceitas: “A multidão de fãs gritou” ou “gritaram”.

Expressões partitivas

Com a maioria de, a maior parte de, metade de, grande parte de, o verbo pode ir para o singular (concordância lógica) ou para o plural (concordância atrativa):

  • “A maioria dos alunos foi à excursão.”
  • “A maioria dos alunos foram à excursão.”

“Mais de um”

O verbo concorda com o numeral, não com a ideia de plural: “Mais de um aluno faltou.” Mas: “Mais de cinco alunos faltaram.”

Pronome relativo “que” e “quem”

  • Com que, o verbo concorda com o antecedente: “Fui eu que derramei o café.”
  • Com quem, pode ficar na 3ª pessoa ou concordar: “Fui eu quem derramou” / “quem derramei”.

Sujeito composto

A regra geral manda o verbo para o plural: “João e Maria foram passear.”

  • Pessoas diferentes: prevalece a 1ª sobre a 2ª, e a 2ª sobre a 3ª. “Eu e ele nos tornaremos amigos.”
  • Sujeito posposto: aceita concordância com o núcleo mais próximo. “Irei eu e minhas amigas.”
  • Ligados por “ou”: singular se houver exclusão (“Pedro ou Antônio ganhará o prêmio”), plural se houver inclusão.
  • Resumidos por “tudo, nada, ninguém”: o verbo concorda com o resumidor. “Os pedidos, as súplicas, o desespero, nada o comoveu.”

A partícula “se”: o caso que mais aparece em concurso

Duas funções diferentes, com resultados opostos.

Partícula apassivadora (verbo transitivo direto)

O verbo concorda com o sujeito paciente — e por isso vai ao plural:

  • Vende-se carro.” / “Vendem-se carros.”
  • Aluga-se sala.” / “Alugam-se salas.”

Índice de indeterminação do sujeito (verbo transitivo indireto)

O verbo fica obrigatoriamente no singular:

  • Precisa-se de secretárias.”
  • Confia-se em pessoas honestas.”

Verbos impessoais: sempre no singular

Verbos sem sujeito ficam na 3ª pessoa do singular, sempre:

  • Havia sérios problemas na cidade.” (nunca “haviam”)
  • Fazia quinze anos que ele parou de estudar.”
  • Deve haver sérios problemas.” — o auxiliar acompanha o principal.

Atenção: o verbo existir não é impessoal e concorda normalmente: “Existem sérios problemas na cidade.”

Verbo “ser” em indicações de tempo e distância

Concorda com a expressão numérica: “São nove horas.” / “É uma hora.” / “São dois quilômetros até lá.”

Perguntas frequentes

É “vende-se casas” ou “vendem-se casas”?

O correto é “vendem-se casas”. O “se” aqui é partícula apassivadora e “casas” é o sujeito da frase — o verbo concorda com ele. A forma “vende-se casas” é muito comum na fala e em placas, mas não é a norma culta.

É “houve muitos problemas” ou “houveram muitos problemas”?

“Houve muitos problemas”. O verbo haver no sentido de existir é impessoal, não tem sujeito e fica sempre na 3ª pessoa do singular. Com o verbo existir seria diferente: “existiram muitos problemas”.

A maioria dos alunos foi ou foram?

As duas formas são aceitas. Com expressões partitivas como “a maioria de”, a gramática admite concordância no singular (com o núcleo “maioria”) ou no plural (com o termo especificador). Em texto formal, o singular costuma ser preferido.

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