Crase: quando usar e quando é proibida

A regra que resolve a maioria dos casos de crase, os usos obrigatórios, os proibidos e o teste rápido para conferir na hora de escrever.

Por Dra. Eliana Camargo · 7 min de leitura ·

A crase não é um acento decorativo nem uma questão de sonoridade. Ela é o sinal gráfico que marca a fusão de duas vogais idênticas: a preposição a mais o artigo a. Entender isso resolve a maior parte das dúvidas — porque, se não houver duas coisas para fundir, não existe crase.

A regra que resolve quase tudo

Para haver crase, duas condições precisam acontecer ao mesmo tempo:

  1. O termo anterior precisa exigir a preposição “a” (isso é regência);
  2. O termo seguinte precisa aceitar o artigo “a” — ou seja, ser uma palavra feminina.

Se as duas condições se cumprem, há fusão e há crase. Se uma delas falha, não há.

O teste da troca pelo masculino

É o atalho mais confiável e leva dois segundos. Troque a palavra feminina por uma masculina equivalente e observe o que acontece:

  • “Assisti à peça” → “Assisti ao filme”. Apareceu ao? Então havia crase.
  • “Cheguei a Brasília” → “Cheguei a Recife”. Não apareceu ao? Então não há crase.

Sempre que a versão masculina pedir ao, a feminina pede à. É o mesmo mecanismo visto de outro ângulo.

Casos em que a crase é obrigatória

1. Antes de horas determinadas

“A reunião começa às 14h.” “Ele saiu à uma da tarde.” Repare no teste: “ao meio-dia” tem ao, logo “às duas horas” tem crase.

2. Nas locuções femininas

Locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas formadas por palavra feminina levam crase mesmo quando a palavra está no singular sem artigo aparente:

à noite, à tarde, à vista, à toa, às pressas, às vezes, à medida que, à procura de, à custa de, à disposição de, frente a frente com.

3. Antes de pronomes demonstrativos “aquele, aquela, aquilo”

“Refiro-me àquele documento.” “Cheguei àquela conclusão.” O a da preposição se funde com o a inicial de aquele.

4. Quando há a expressão “à moda de” subentendida

“Bife à milanesa”, “Escreve à Machado de Assis”. Aqui a crase aparece até diante de palavra masculina, porque o que está subentendido é “à moda de”.

Casos em que a crase é proibida

  • Antes de palavra masculina: “Andamos a pé”, “Viajei a cavalo”, “Pagamento a prazo”. (Exceção: a “moda de” subentendida, vista acima.)
  • Antes de verbo: “Começou a chover”, “Estou disposto a colaborar”. Verbo não aceita artigo.
  • Antes de pronomes pessoais: “Entreguei a ela”, “Refiro-me a você”.
  • Antes da maioria dos pronomes indefinidos: “Não falei a ninguém”, “Deu a cada um”.
  • Entre palavras repetidas: “cara a cara”, “gota a gota”, “dia a dia”, “frente a frente”.
  • Antes de nomes de cidade que não pedem artigo: “Fui a Salvador”. Mas: “Fui à Salvador de Jorge Amado” — quando vem uma especificação, o artigo aparece e a crase também.

Casos em que a crase é facultativa

Existem três situações em que você pode usar ou não, e as duas formas estão corretas:

  • Antes de nome próprio feminino: “Entreguei o relatório a Maria” ou “à Maria”.
  • Antes de pronome possessivo feminino: “Referiu-se a minha proposta” ou “à minha proposta”.
  • Depois da preposição “até”: “Fui até a porta” ou “até à porta”.

A pegadinha do “a” antes de plural

Quando o a aparece sozinho diante de uma palavra no plural, não há crase — porque só há preposição, sem artigo. Compare:

  • “Refiro-me a pessoas honestas.” (genérico, sem artigo)
  • “Refiro-me às pessoas que estavam na sala.” (específico, com artigo)

O sinal está no próprio a: se ele estiver no singular diante de plural, não há crase.

Resumo prático para consultar na hora de escrever

SituaçãoExemploCrase?
Horas determinadasàs 15hSim
Locução femininaà noite, às pressasSim
Àquele / àquelaàquele projetoSim
Palavra masculinaa pé, a prazoNão
Antes de verboa choverNão
Pronome pessoala ela, a vocêNão
Palavras repetidascara a caraNão
Nome próprio femininoa/à MariaFacultativo

Perguntas frequentes

Existe crase antes de palavra masculina?

Só em um caso: quando está subentendida a expressão “à moda de”, como em “bife à milanesa” ou “escrever à Machado de Assis”. Fora disso, palavra masculina não aceita o artigo “a” e, portanto, não há fusão nem crase.

Qual o teste mais rápido para saber se tem crase?

Troque a palavra feminina por uma masculina equivalente. Se a frase pedir “ao”, há crase. Se pedir apenas “a”, não há. Exemplo: “assisti à peça” vira “assisti ao filme” — logo, há crase.

Usa crase antes de horas?

Sim, quando a hora é determinada: “às 14h”, “à uma da tarde”. Se houver as preposições “até”, “para”, “desde” ou “após” antes, a crase se mantém: “das 8h às 12h”.

Escreve-se “a partir de” ou “à partir de”?

Sempre “a partir de”, sem crase. “Partir” é verbo, e verbo não aceita artigo — sem artigo, não há fusão.

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